Por que colecionar? - fotografias anônimas

ENSAIO

anônimo, coleção Eder Ribeiro

anônimo, coleção Eder Ribeiro

Comecei minha coleção de fotografia vernacular francesa em 2015 , quando fui pela primeira vez à feira de antiguidades (marché aux puces) de Vanves, Paris.

Fui com a missão específica de adquirir uma foto de militar da primeira guerra mundial que seria utilizada em uma pesquisa visual, parte do meu projeto de Master em arte contemporânea/fotografia na Universidade Paris 8. Já havia visto a exposição Toute photographie fait énigme proposta pelo historiador e critico Michel Frizot na MEP (Musée Europeénne de la Photographie) no final de 2014 e em seguida Photos trouvées, photographies d'amateurs du 20ème siècle do mesmo M. Frizot, com  Cédric de Veigy. As duas apresentavam uma centena de fotografias  produzidas exclusivamente por amadores/anônimos, durante todo o século XX e descobertas nas feiras de antiguidades.
 
Foi uma revelação descobrir a potência dessa fotografia completamente desconsiderada pelo estudo e pela história da fotografia e que me havia passada despercebida até então. Mas a questão decisiva que despertou meu interesse por coleciona-las não foi a princípio de ordem acadêmico,  mas sim  o arrebatamento estético que essas imagens, que escapam à classificação, ao esteticismo e à museificação [1], me causavam. E’ claro que com o tempo esse meu interesse se ampliou abarcando os aspectos técnicos, históricos e sociais.

                

anônimo, coleção Eder Ribeiro

anônimo, coleção Eder Ribeiro

Nesse primeiro encontro lembro de ter adquirido também alguns negativos em placa de vidro entre outros materiais  que me eram  desconhecidos. A  partir de momento a questão do suporte, da técnica e da historiografia viriam re-significar  o objeto que tinha em mãos. Embora evidentes estas questões apenas tangenciavam minha relação espectador-imagem, não mais. Cada imagem é fruto de seu tempo, com os meios técnicos que a fazem existir em um momento preciso da história. A importância desse fator subjacente passou a rivalizar com os elementos constituintes da imagem, isto é sua composição, sujeito, tema, entre outros. 

Essa coleção começa assim abarcando todas as técnica e suportes da fotografia anônima do século XX em suas diversas  manifestações, sobretudo a representação do individuo na esfera privada: comemorações, viagens, contemplando todos os gêneros clássicos das artes plásticas, como o retrato, a paisagem, a arquitetura, entre outros. Mas é no aspecto da sociologia dos costumes, que a coleção adquire um interesse outro, por descortinar, através de diferentes classes sociais, uma outra historia, feita de eventos, gestos, décor, e representação ao longo do ultimo século.

anônimo, coleção Eder Ribeiro

anônimo, coleção Eder Ribeiro

Seguramente o interesse por esse tipo de fotografia, o imaginário que ela solicita,   se dá pela sua capacidade de comunicar o que chamaria de conteúdo latente, apenas sugerido, mas suficientemente potente para ativar no espectador associações inesperadas e infinitas interpretações. Isso se deve, na maior parte dos caos,  pelo fato dessas imagens se apresentarem em estado bruto, sem qualquer referência que as contextualizem. E que nos faz perguntar “O que pode ter essas  fotografias anônimas, feitas por desconhecidos, que se aprecia com gosto e persiste como um enigma ?”(2)

anônimo, coleção Eder Ribeiro

anônimo, coleção Eder Ribeiro

Hoje esse enigma ainda persiste e foi a principal motivação para a aquisição de aproximadamente dois mil itens nos últimos anos, entre negativos, placas de vidro, cartas de visita e que ainda estão em processo de catalogação. Uma catalogação problemática, pois não a vejo em divisão por gêneros, como os citados acima, mas ao contrário como um atlas, reagrupando diferentes formatos e suportes, através das diversas conecções possiveis entre essas imagens. Essa abordagem se iniciou desde as primeiras aquisições, quando as colocava lado a lado sobre uma mesa, o conjunto se revelava muito mais potente exatamente por ampliar esse conteúdo latente presente individualmente nas imagens. Ao descobrir, tempos depois, os Atlas de Gerhard Richter compreendi a força dessa organização, que apenas havia tateado intuitivamente.

Atlas de Vanves  , maio 2017,  fotografias anônimas, coleção Eder Ribeiro

Atlas de Vanves , maio 2017,  fotografias anônimas, coleção Eder Ribeiro

[1] Texto de apresentação da exposição Toute photographie fait énigme , na Maison Européenne de la Photographie, Paris de 12.11.2014 - 25.01.2015

[2]Texto de apresentação da exposição Photos trouvées, photographies d'amateurs du 20ème siècle24-10-2014 a 25-01-2015

[1]Te

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