6a edição do prêmio Marcantonio Vilaça e a fotografia

ARTIGO

O prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça procura, há 12 anos, reconhecer e divulgar a produçãoartística nacional. Apartir da penúltima edição (1015-2016) incorporou também um prêmio a trajetória de curadores. Vinte artistas foram selecionados, destes cinco foram premiados. A sua sexta edição (2017-2018), que contou com a parceria do Mube-SP, contemplou alguns dos artistas que utilizam a fotografia como meio de expressão ou se utilizam dela como base do seu trabalho. Pedro Motta, Rochelle Costi, Éder Oliveira, Alice Miceli são alguns dos selecionados, sendo os dois primeiros também premiados.  Essas diferentes práticas do meio fotográfico permitem traçar alguns dos rumos da fotografia contemporânea brasileira.

 

Pedro Motta  série  Flora negra,  2015/2016)

Pedro Motta série Flora negra, 2015/2016)

No trabalho de Pedro Motta (série Flora negra de 2015/2016) a fotografia converge para a prática da instalação, onde a especificidade da imagem está associada a outros elementos e sua disposição no espaço expositivo.  A própria moldura, longe de ser apenas um suporte,  se faz dispositivo organizador e caixa receptora dos vários elementos da natureza, galhos, folhas, etc, além claro da imagem fotográfica. Eles reforçam o universo narrativo da fotografia, que por sua vez é também suporte às aparições, desenhos evocações de personagens dos filmes Aguirre, a cólera dos deuses e Fitzcarraldo (1982), filmes de Werner Herzog. Nessa obra é como se a fotografia, sua bidimensionalidade,  per se não se mostrasse  suficiente para abarcar todo o universo imaginário do autor. Essa prática sinaliza um movimento evidente de inserção da fotografia evidencia a inserção da fotografia no campo estendido das artes plasticas.

 

Rochelle Costi   ( Contabilidad, 2016 )

Rochelle Costi(Contabilidad, 2016)

Rochelle Costi, com suas imagens de grande dimensões (Contabilidad, 2016), mostrando os mercados populares e de artesanato têxtil na Guatemala, revela o poder da fotografia em interpretar a realidade através de códigos que vão além da relação referente x significado. 

A aparente transparência da imagem, característica por muito tempo reivindicada pela fotografia, sua função documentar, é atravessada pelas camadas de significâncias incrustradas pela artista em suas imagens, assim podemos seguir os números minuciosamente acoplados a cada uma das mercadorias visíveis na imagem, formando uma espécie de inventário infinito das coisas dentro da imagem. As molduras em forma de pesadas caixas coloridas, segundo referência de cores das antigas lojas de comércio do centro histórico da Cidade de Guatemala, reforçam a sensação de objeto, ou antes de uma janela sobre os objetos empilhados à exaustão. Esse dispositivo inscreve a imagem fotográfica em um campo conceitual, de construção de realidades e não mais de sua representação.

Éder Oliveira    ( Sem titulo, 2017 )

Éder Oliveira (Sem titulo, 2017)

A obra do artista Éder Oliveira (Sem titulo, 2017), embora firmemente inserida na tradição da pintura, guarda uma relação evidente com a fotografia, ou antes estabelece com esta última uma relação dialética. A presença da imagem  fotográfica é  patente na sua obra, tanto mais que seu objeto de estudo são as representações dos indivíduos,  frequentemente retratados nas páginas policiais da capital paraense, e suas consequências na consolidação de estereótipos e estigmatizações. Através da pintura ele estabelece uma crítica que ultrapassa o cunho politico, ao questionar a pretensa neutralidade do meio fotografico, revelando seu poder de criar mitos e pré-julgamentos. Não por acaso sua última exposição individual se intitula apropriadamente Pintura ou a Fotografia como Violência (Palácio das Artes, Belo Horizonte , 2017)

 

Alice Miceli   ,    Em Profundidade (campos minados/ Camboja #1 e #11)

Alice Miceli, Em Profundidade (campos minados/ Camboja #1 e #11)

Alice Miceli, por sua vez, apresenta a série Em Profundidade (campos minados/ Camboja #1 e #11) que faz uso da transparência da fotografia, convocando a paisagem para discutir o não visível na imagem. Sua aparente neutralidade e placidez não é mais que aparente. Quando vistas lado a lado, elas nos conferem a sensação exata de uma vertigem, de um deslocamento, que é o próprio hiato entre um passo e outro em um campo minado.  Nessa obra Miceli reafirma a potência que ainda guarda o meio fotográfico, em sua forma pura.

A fotografia já abandonou deixou a divisão em gêneros caros à arte acadêmica, atualmente eles servem no máximo como referência, assim Motta recupera o gênero da paisagem, tema clássico das artes plásticas, para além do seu caráter topográfico original, inserindo-a em um universo narrativo e performático, Miceli a inscreve em um universo conceitual e político e Oliveira revisita o gênero por excelência das artes plásticas o retrato, pelo cruzamento dos meios fotográficos e da pintura. Todos confirmam o principal atributo e potência do meio fotográfico,   qual seja a sua permeabilidade aos outros campos das artes plásticas, seja vídeo, pintura, desenho e instalação.                                                                  

                                                                                                                                                                                                                Agosto, 2017

Exposiçao do 6° Prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça,  MuBE- Museu Brasileiro da Escultura ( 11/08 a 1/11/2017) 

 

 

 

    

Eder RibeiroComment